Colaboração e Amor - Moventis

Hoje é um dia especial para mim. E por isso vou contar uma história sobre colaboração e amor.

Em 1995, na Faculdade, abriram inscrições para a Equipe de Ginástica Acrobática. uma amiga e eu resolvemos participar da seletiva. Ela, mil vezes melhor do que eu em muita coisa, teria a chance de brilhar nesta equipe, que já era bastante conhecida fora dali. Eu fui por plena paixão por tudo o que envolve música e corpo. Conclusão: não passamos.

Fiquei inconformada. Não por mim, mas por ela, Uma deusa dançando e se movimentando. Para resolver o problema, criei o meu próprio grupo, sem seletiva. Quem quisesse entrava. 

Abrimos a chamada e chegou uma boa trupe. Apesar de líder, sempre gostei de criar junto. Fazer junto. Disso saiu um estudo sobre o Mangue, música, como moravam os mulambos, lama, tudo. Desenvolvemos a coreografia Da Lama ao Caos. E o nome do grupo ficou Movimento Mangue. 

A Confederação Brasileira de Ginástica abriu seletiva para a Gymnaestrada Mundial na Suécia. A gente nem sabia o que era isso. Mas resolvemos nos inscrever, anonimamente em nome da Faculdade. O grupo de acrobática também estaria lá. 

Lá fomos nós, cheios de lama, no meio de ginastas arrumadinhos. Nosso figurino era um colant cor da pele e em volta cheio de lama (de verdade). Ninguém queria sentar perto de nós na área dos ginastas. Foi lindo de ver. :)

Apresentação chegou. Há uma série de quesitos nesta seletiva. Uma delas é, no final, um agradecimento alinhado para o público. Nos alinhamos em fila para agradecer. Um silêncio no ginásio. Pensei: Odiaram !! Mas depois de alguns segundos, parecia que o público só estava num transe. Fomos ovacionados em pé. Nota maravilhosa para a aprovação. Isto é, estávamos na Equipe Brasileira de Ginástica Geral. 

Vocês ficam aí pensando que eu fiquei em êxtase. Fiquei sim, mas foi pouco perto do que estava por vir. 

Estar numa equipe de uma Confederação não significa que você consiga pagar a ida até os eventos. Suécia. Passagem aérea, alojamento, trem, alimentação. Entendemos que era necessário movimentar mais gente para conseguirmos ir. E, assim, fizemos. Festas, venda de produtos, chocolate no farol. Chocolate bis nas escolas em dia de eleição. A mídia começou a nos ver e a nos apoiar. Uns malucos, cheios de lama, fazendo barulho para representar o Brasil no maior evento de Ginástica do Mundo. Maior. (Um dia conto mais sobre ele, pois é maior que uma Olimpíada em número de participantes).

Dinheiro arrecadado, mulambos rumo à Suécia.

Lá, o que vi: Muita gente fazendo ginástica de formas mais livres possíveis. Foi amor à primeira vista. Crianças e adultos, terceira idade e crianças, Síndrome de down e obesos, obesos e senhoras, famílias e jovens. De tudo eu vi. E me emocionei com a possibilidade de qualquer pessoa fazer ginástica.  Me faltava ar para voltar ao Brasil. Era impossível eu voltar do mesmo jeito. E não voltei. Comecei a pesquisar sobre isso. Entrei no Mestrado, fui fundo. Criei um grupo de Terceira Idade, que foi meu objeto de estudo, mas antes de qualquer coisa, foi um dos amores da minha vida. Pessoas que me ensinaram muito sobre respeito, sobre doença, sobre alegria e sobre colaboração. 

Em 2002, resolvi que as levaria para este mesmo evento, mas em Portugal, no próximo ano. Elas se mobilizaram para isso, de forma colaborativa. E foram. Além delas, levei mais dois grupos. Movimento Mangue e Raiz de Pé, criado na Universidade Uninove, com alunos. 

Eu estava grávida de sete meses. Nunca trabalhei tanto e aprendi, também. A ida destes grupos, nas condições que conseguimos ir, foi o o ponto alto do meu aprendizado sobre colaboração e trabalho em grupo. A cada dia eu estava menos mandona. Com mais escuta e mais jogo de líder. Alguns destes garotos mal tinham como se sustentar no Brasil, mas estavam ali realizando um mega sonho. Isso me preenchia de amor. 

Chegando ao Brasil, Thomas nasceu. Acho que ficou com vontade de viver aqui fora esta loucura toda que eu vivia. Na barriga estava muito chato. :)

Lá em Portugal, uma das minhas inquietações teve fim. Desde a Suécia eu me perguntava por que cargas d'água o Brasil levava grupos tão pequenos em suas coreografias ? Nós éramos o país que havia participado de todas as Gymnaestradas desde o início delas. País super respeitado pela beleza, criatividade e diversidade coreográfica. Os outros países levavam equipes imensas, Eu não entendia. E isso mexia comigo. E foi lá que veio o insight. "Vou juntar vários técnicos de várias regiões do Brasil e fazer uma só coreo". Ali mesmo lancei a ideia. Eles já sabiam que eu ia fazer com ou sem eles, então aceitaram o convite.

Criamos uma coreografia com integrantes dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. À distância. Cada um no seu quadrado. Depois juntamos tudo. E foi um marco para a Ginástica Geral no Brasil. 

Me lembro até hoje, na entrada para apresentação da coregrafia na seletiva, os avaliadores olhavam espantados com o número de integrantes. Eram muitos. E muitos fomos para a Áustria. E eu os agradeço até hoje. Pois realizaram meu sonho. Em muitas instâncias. Conseguimos de forma colaborativa, para criar a coreografia e para viajar, de forma prática. Cada um fazendo dentro do seu Estado que conseguia fazer.

E onde entra a Moventis nisso tudo ? Entra lá em 2003. Quando voltei de Portugal, não podia mais ficar sem propor às pessoas uma forma de fazer ginástica independentemente da sua habilidade, tipo físico, ou qualquer coisa que fosse. 

Moventis significa aquele que se move a frente. Contratei uma empresa para pesquisar nome, com as cores que eu queria em tudo. Moventis seria um Centro de Educação pelo Movimento. Com todas as ginásticas oficiais de competição, sem haver competição. Ali a ideia era cada um superar a si mesmo e não ao outro.  Dos bebês até 1200 anos de idade.  Não havia limite.

Atendíamos qualquer pessoa. Não havia exclusão. Necessidades especiais, ginastas de competição. Não havia nada que me impedisse de aceitar alguém na escola. Nada. (Tenho que dizer que me emociono em falar disso. Neste momento sinto a vibração que eu tinha em ver um adulto chorar de alegria por conseguir saltar num trampolim acrobático). 

Lá, meus filhos aprenderam muito sobre trabalho em equipe, sobre preconceito, amor, respeito. 

Em 2010, fechamos. Fiquei doente e muito disso foi pelo grande que era aquele lugar para uma pessoa tão pequena como eu. 

Hoje, o que eu vejo. A possibilidade dela voltar. Como ? Com colaboração.

Tem muito lugar abandonado e muita gente precisando de um espaço como este. Muita gente com dinheiro sem investir em nada e que pode me ouvir. Muita escola com quadra e equipamentos obsoletos por falta de visão de comunidade e de nova economia.  Muito profissional bom querendo fazer o que sabe de melhor. 

Temos um Prefeito aberto para isso tudo. 

E tem EU. Que não desisto do que acho que vale a pena fazer por um mundo mais capacitado e mais sistemicamente equilibrado.  

Mas eu não vejo isso acontecendo só em SP. Vejo em qualquer lugar que você quiser. A gente dá um jeito de ir até sua cidade para implantar a ideia.  Se quiser conversar, só me adicionar no facebook e interagir no grupo.

Hoje, 16/09, temos um primeiro encontro. Vou contar para uma galera que se conectou com a ideia. Vem ouvir este pessoal. Todos que sei que irão ainda têm o vírus Moventis no sangue. Ele não sai depois que entra. 

Veja os vídeos que coloquei no texto, para ter um gostinho deste trabalho.

Sou Grata ao Universo por me dar coragem em retomar tudo isso. Garanto a vocês, que além de Coragem, no meu coração existe muito amor pelo Ser Humano e pelo Planeta todo para fazer isso acontecer.

Vem !!