Não sou a Síndrome !

Na minha fase adulta, fui diagnosticada como portadora da Síndrome de Asperger. Para alguns especialistas, uma espécie de autismo. Para outros uma síndrome mais leve. Para mim, mais um rótulo que ajuda as pessoas a justificarem a si mesmas como diferentes e outras a entenderem como lidar com pessoas diferentes delas mesmas. Não desmereço o diagnóstico, pois a partir dele entendi os processos neurobiológicos da síndrome em questão. 

Quando eu soube disso, foi um dia muito difícil. Eu, que sempre fui diferente mesmo, não entendia por que minha diferença teria que ser resumida numa síndrome. O que fiz neste dia ? Fui comer pastel no Mercado Central no Centro de SP, sentir o cheiro das frutas e andar com meu melhor amigo, que tão perplexo como eu, soube me confortar e olhar comigo de uma maneira bem leve para àquela nova perspectiva.

Depois do pastel e das emoções se assentarem, eu tomei algumas decisões. Refleti que passei a vida sem saber e que naquele momento eu tinha uma nova oportunidade de entender os motivos de alguns dos meus comportamentos e tentar aprimorar ou transformar. Foi assim que vi. 

Passei a ser observadora atenta de mim mesma, enquanto Asperger. Não divulguei o assunto, pois não queria que as pessoas começassem a justificar meus comportamentos por um síndrome. E eu não era a Síndrome. Mas a Patrícia. E eu também sou orgulhosa... Não ia deixa uma síndrome me dizer o que fazer. 

Levantei os prós e contras (resumidamente os que me chamaram mais a atenção). Prós: QI altíssimo e alta capacidade de realizar algo muito bem, pois o foco na atividade em questão me tornava especialista naquilo. Oba, ponto para a síndrome. Contras: dificuldade de relacionamento e de entender outros pontos de vista que sejam totalmente fora do que eu dominava. 

Percebi porque eu deletava algumas pessoas da minha vida, com tanta facilidade e sem sofrimento. Eu não as via na verdade, não conseguia mais vê-las. Sumiam do meu campo de relação. E ainda é bastante difícil isso para mim. Mantê-las na minha vida. Não posso explicar o que se passa. Meu cérebro faz isso. Não meu coração. Mas eu desenvolvi uma força para não afastá-las. Esta força está em expandir meu coração, para que cada pessoa com que me relaciono esteja conectada a ele e não à minha mente. Minha busca nesta expansão é muito por esta razão. Porque não quero deixar de me relacionar com ninguém. E não quero um mundo só meu, solitário e exclusivo. 

Às vezes, as pessoas acham que sou teimosa. Que só olho meu ponto de vista. Às vezes sim, às vezes não. Às vezes é porque eu não consigo mesmo entender o outro ponto de vista. É uma incapacidade neurológica, que não tem a ver com o tal de QI altíssimo. Quando um conflito acontece por este motivo, uso de novo meu coração. Que me mostra o conflito, porém não consigo que ele me explique o ponto de vista do outro, imediatamente. Mas me conecta ao amor. E o amor me acalma, me mostra que há algo ali para eu entender, novo e absolutamente diferente do que eu acho que é. E tento, resgatar a pessoa do conflito, tento entender o que ela está tentando me mostrar. Isso pode demorar, não só horas, mas dias ou meses. Não tenho uma garantia de que vou entender no mesmo momento. Daí acabo contando com o amor do outro. Com a atitude amorosa do outro. Que não pode ser baseada no fato dele saber que tenho a síndrome. Mas simplesmente por amor, paciência, empatia. É uma super experiência para mim, pelo menos, intensa e de muitos aprendizados.

Por que uso meu exemplo ? Porque acho que as síndromes são milhares. As diferenças e dificuldades individuais transcendem o diagnóstico médico. Cada um de nós deve ter algo a ser acolhido por nós mesmos e pelo outro. Compaixão por nós mesmos parece ser algo muito difícil. Mas se não tivermos compaixão por nós mesmos, como podemos ser empáticos com o outro ? Não sabemos quase nada, na verdade ! Não sabemos as dores e os prazeres reais de cada um com que nos relacionamos. É tudo muito complexo. Muita ilusão de termos verdades compiladas em algum lugar. Verdades são perspectivas pessoais. 

Acho que somos seres em evolução constante. E acho que eu aprendi muito sobre não manter o diagnóstico médico. Percebo mudanças importantes na minha vida desde que decidi não ser a síndrome. Requer ainda muita disciplina na observação, mas como diz Bhagavan, a fórmula do sucesso para qualquer objetivo na vida é Intenção + Esforço + Graça Divina. Uso os prós que encontrei na síndrome, coloco a intenção de não Sê-la e me esforço diariamente para sobreviver, mas principalmente evoluir. 

Com amor !!