AMOR LIVRE, CIÚME E OUTROS PARANAUÊS

Pitica* que eu era, já queria ganhar o mundo. Não é dona Nadir (mãe) ? Morar sozinha, viajar, aprontar. Pulei muita janela do quarto na adolescência, imaginando que elas eram o caminho da minha liberdade. Um caos familiar, eu era. Fugia, queria aprender lá fora de casa. Filha mais velha, fui desbravando as cercas que meu pai colocou para nos proteger. E foi tudo bem assim.

Nesta ânsia de liberdade (meu mapa astral diz que nasci para ser livre e superar limites) não havia lugar para relacionamentos fixos. Namoricos, uma ou outra confusão, mas não queria me casar, morar junto. Eu me lembro de um namorado, o mais "fixo" de todos, um difícil relacionamento entre uma geminiana e um leonino. Ele o sol que quer ser o único brilho na vida de alguém. Eu, as estrelas, que têm um brilho bem distribuído. Quando ele sinalizou de morarmos juntos, por mais sentimento que eu tivesse por ele, a coisa não funcionou. Me deu uma espécie de aperto no coração. Não dava para passar daquele ponto em que estávamos. E acabou assim. 

Casei... que incoerência !! Que nada ! Casei com acordo de que eu não perderia minha liberdade. E assim foi cumprido. Meu "ex" fez duas coisas muito lindas. Primeiro ele manteve o acordo. Nunca, jamais me forçou a escolher, a não fazer algo ou me sentir presa a ele. Incluía, neste acordo, poder escolher me sentir bem ao lado de outras pessoas, em qualquer tipo de relacionamento. Posso dizer que era um casamento aberto. E assim foi, bem.

A segunda coisa linda que ele fez, foi aceitar termos os dois lindos filhos que temos. Os seres que mais me ensinam sobre ser livre e superar limites. Maior experiência que tenho para aprender o que vim fazer no planeta. Então, a coerência de ter me casado se faz por estes dois motivos. Grande companheiro e amigo. E acabou assim.

Daí, eis que eu descubro que existe mais que isso nas relações. Conheço uma pessoa que muda toda a perspectiva do meu olhar. E não vou falar dele. Mas do que surgiu em mim a partir deste sentimento por ele. 

Mantive a expectativa de ser livre. Mas como ficou mais difícil !! Muito mais. Um turbilhão de emoções, que, de qualquer forma, me aprisionaram. Medo de ficar presa foi o primeiro a aparecer. Eu desconhecia a potência deste sentimento novo. Novo, cheio de sutilezas, cheio de mais pessoas em volta, cheio de falta de ar. Já ouviu este termo ? Cheio de falta de alguma coisa ? Eu inventei. Pois foi o que senti. Cheia de falta de ar. Meu coração foi pressionado ao máximo. Era o medo. Medo de não dar conta. Dele não corresponder. Correspondendo, dele abandonar... Muitos medos. 

Um confronto com meu propósito de amor livre. Meu ex-marido poderia sair com outra mulher. Não mudava o que eu sentia por ele. Era muito tranquilo. Mas esta nova pessoa... não poderia imaginar ele com outra mulher. Surgiu o sentimento mais difícil que observei na vida. Juro... Como o ciúme foi difícil! E mais, como foi duro ver que minha certeza do amor livre estava num precipício sendo empurrado pelo ciúme !! 

Minha mente, esperta, logo se apoderou da situação. Me encheu de caramilholas, atraiu pessoas que fizeram seu papel em colocar mais lenha na fogueira. O que me salvou disso ? Não sei se fui salva ainda, mas estou com a boia, com certeza. O que me salvou foi o amor. O amor me fez forte e ajudou-me a colocar o medo no lugar dele, ao lado. Olhei para o medo e disse: "ok... te vejo, te compreendo agora, você é parte das minhas experiências passadas e reverbera no presente, mas preciso agora que vc fique ao lado." E as coisas foram acalmando, o peito menos apertado, mas ainda com pouco ar. Já dava para começar a trabalhar com isso dentro de mim. 

Comecei a resgatar quando senti isso outras vezes. O ciúme. Lembrei de uma situação na minha infância. Eu tenho uma prima. Irmã. Éramos unha e carne, café com leite, tudo junto sempre. Até o dia que ela resolveu se casar. Quando me lembrei disso, me vi no sofá da casa da minha mãe, prostrada, doente, com febre. Minha amiga, irmã, parceira de bagunça, de fugas, de liberdade ia se casar. E eu ? Ficaria como ? A mercê da solidão ? Dou risada pensando nisso. Que drama !! Febre... aff... foi assim mesmo. Também me lembro que minha mãe a chamou para conversar comigo e ela se sentou no sofá e me disse que nada ia mudar. Mentira !! Não que ela soubesse que estava mentindo, mas estava. Tudo mudou. Tudo muda sempre !! Ninguém pode prometer que não haverá mudança. É incontrolável. 

Olhando para esta situação da prima, o ciúme ficou claro agora para mim. O medo de mudar é muito arrasador. Mudar para algo novo é dar um próximo passo ao incógnito. E o ciúme é uma travessura da mente querendo controlar o que não quero mudar. Não quero que meu amor me deixe por outra mulher, porque não quero mudar. Não quero mudar para uma nova experiência. Esta está ótima assim. Confortável amar alguém e pronto. E lidar com a dor do abandono vai ser uma chatice. Ser trocada por outra vai mexer com meu ego dolorido... Muito trabalho ter que olhar para tanta coisa. Daí vem o gatilho. A arma que a mente do ego usa, no meu caso, é o ciúme.

Nesta semana, escrevi sobre o controle e a expectativa do resultado (leia no link abaixo). E foi a partir deste entendimento que consegui me observar mais neste processo. Transformei meu sentimento de ciúme em Confiar no que o Universo me reserva. Isso me deu leveza e pouca expectativa no relacionamento que vivo hoje. Quando a mente tenta me fisgar, imediatamente respiro no coração, de forma consciente, e expando para que, o que precisa ser feito, seja feito, sem minha intervenção. Não é fácil, mas estou cada dia mais empoderada disso. É um orai e vigiai, sabem ? Observando a todo momento, não me identificando com o ciúme. Eu não sou ele. Nem ele sou eu. Eu, particularmente, sou bastante disciplinada quando quero atingir um objetivo. E tenho usado muitas ferramentas para liberar o que me causa dor. Acho que o caminho está sendo trilhado e estou feliz com o percurso. Não há garantia de que viverei eternamente com esta pessoa. Não há garantia de que viverei hoje à tarde com ele. Então, o melhor que posso fazer é viver o agora, este minuto. Ele não está aqui. Mas o meu amor está dentro de mim. O Amar é o agora. Não pode depender do sentimento do outro, das escolhas do outro. Sem controle, sem resultado. Esta decisão de viver assim tem me deixado feliz, leve e vivendo momentos incríveis todos os dias. Eu recomendo.

Num próximo post vou falar de sexo... neste contexto todo de amor livre, pois eu sinto que há muitos equívocos por aí. Quero me posicionar a respeito, pois já tenho uma posição. Mas só no próximo.

<3

TEXTO:

http://destinocolaborativo.com.br/o-controle-e-ilusao-tambem-com-os-resultados/

Patrícia Ribeiro